terça-feira, janeiro 30, 2007

Lancemos a cartas

Em todos os jogos existem trunfos, ou seja, meios poderosos que podem mudar o rumo dos acontecimentos e até mesmo derrubar o adversário. O mesmo que passa, estranhamente, na discussão que empreendemos há já vários meses. Estranhamente porque em vez de estarmos a discutir factos e números, andamos todos a atirar trunfos uns aos outros, sem sabermos qual é o naipe escolhido.

Isto foi o que eu brilhantemente (atenção à ironia) reflecti quando acabou a telenovela da TVI e mudei de canal, para a RTP1. Salvo erro, é o 3ª semana, nos últimos tempos, em que o P&C é subordinado ao tema do referendo/aborto. Não é por falta de informação que as pessoas irão deixar de votar ou votarão em branco.

Recomeçando o que comecei, os trunfos do sim não se alteraram muito desde 1998. A obstinação de falar em palavra como despenalização e interrupção voluntária da gravidez são as mesmas de sempre. A sua maior inovação é lutarem contra a abstenção. Basta olhar para os cartazes da CNE ou para os promos da SIC Noticias, para se perceber que por detrás de um apelo ao voto, esta sempre um fervoroso adepto do sim. Miguel Horta e Costa já explicou que o eleitorado do Não é fixo, e os votos do sim dependem do eleitorado que ainda não decidiu se vai votar. Porém, o seu maior trunfo é transmitir aos portugueses que vivemos numa situação insuportável que só será alterada se o sim ganhar. Pois aos portugueses eu sou muito claro: Vivemos numa situação insuportável porque os impostos são altos, que só ganha quem os consegue não pagar; porque o desemprego é altíssimo, porque a justiça é inoperante, a saúde é uma doença e a educação é um problema bicudo. Se vivemos nessa situação em parte é porque mais de metade dos deputados anda 2 anos a tentar marcar um referendo em vez de resolver os verdadeiros problemas com os quais quase todos os portugueses sofrem. A minha irmã não sofre por causa do aborto ser penalizado, a minha irmã sofre porque anda à 12º anos no ensino estatal e já levou com inúmeras mudanças de programas, de cursos e de livros, sem que haja um projecto de ensino que a acompanhe verdadeiramente durante todos os anos de estudo. A minha mãe não sofre por causa do aborto ser penalizado, mais sim porque só teve 3 meses de licença de maternidade em cada um dos 4 filhos que teve, porque se mata a trabalhar para descontar quase metade daquilo que recebe, para sustentar 4 filhos a estudar, dois na universidade e dois no secundário. A minha tia não sofre por causa do aborto ser penalizado, ela sofre porque têm uma filha com 2 anos e está colocada numa escola a mais de 100 km da casa dela.
As nossas mulheres sofrem porque os deputados estão 2 anos para marcar um referendo, porque se esquecem que as suas atribuições não se esgotam na alteração do artigo 140º do Código Penal, mas se diluem nas mais variadas áreas da administração estatal e da legislação nacional.

Os trunfos do não esgotam-se na realidade. Não falamos em Interrupção voluntária da gravidez mas sim em aborto (nunca ouvi ninguém falar em interrupção involuntária da gravidez, por exemplo), falamos em liberalização, pois é isso que a pergunta a referendo aprova. Denunciamos os 6 votos vencidos no tribunal constitucional e não apelamos contra a abstenção, porque quem vota Não nunca ficará em casa a ver a matiné da tarde em vez de ir votar, e se ficar é porque votou de manha. Denunciamos um estado que não apoia as mulheres grávidas nem os bebés abandonados, deixando isso à boa vontade dos cidadãos. Denunciamos um governo que fecha maternidades e que se obstina a pagar abortos porque sim a quem quiser. Ao senhor Correia digo-lhe que as verdadeiras mulheres portuguesas preferem ter os filhos em más condições do que abortar em instalações da NASA. Denunciamos os dados que apontam para as baixas taxas de natalidade, para um envelhecimento gradual do nosso povo e rejeitamos dados pindéricos sobre centenas de milhares de abortos clandestinos que se fizeram em Portugal durante os últimos anos. Chamamos à razão os procuradores que denunciam os casos de aborto ilegal e que nada fazem para o investigar e levar à justiça. Se calhar dá melhor imagem andar atrás de outros criminosos, quem sabe.

O povo português está cansado de tudo isto, está cansado se ver trunfos batidos na mesa, sem que tenha ainda dado as cartas. De uma vez por todas, o grito de revolta está nas nossas mãos: Vamos todos votar Não!

4 Comentários:

Blogger Rui escreveu...

O que está em causa como se disse no programa é mudar a lei, é o Código Penal em si. Deixemo-nos de hipócrisias sobre a vida. Deixemos de ser a vergonha da Europa e evoluamos.

1/30/2007 04:33:00 da manhã  
Blogger Irredutível escreveu...

Nós seremos evoluidos quando nenhuma mulher precisar de fazer um aborto. Até lá, é melhor continuar a ser crime para não acontecer como na russia, onde existem mais abortos que nascimentos...

1/30/2007 11:52:00 da manhã  
Anonymous Cristal. escreveu...

Esta da "evolução"... está já mais que gasta! Andei na rua no Carmo em 25 de Abril e não foi para parar no tempo que o fiz! Trinta e dois anos depois estamos a andar para trás e parece que não o vemos! Triste "esquerda" esta que não enxerga que evoluir é estar na vanguarda da luta pelos ideais mais nobres do Homem e não do egoísmo de cada um!... Na pirâmide dos valores o da vida é o primeiro. Os outros direitos (das mulheres, dos homens,à habitação, ao trabalho, etc.)são dependentes daquele e não podem a ele ser nunca subjugados. O desrespeito pela vida é o fim da linha do respeito pela dignidade do próprio homem.

1/30/2007 10:27:00 da tarde  
Anonymous Anónimo escreveu...

Sabem que nos países onde houve liberalização do aborto esta se fez antes de haver recurso às ecografias, ou seja, há mais de trinta anos, numa altura em que não era possível ver o que estava dentro da mãe e que só os abortistas viam aquela "coisa humana"? Só que o aborto dá muito dinheirinho a ganhar a muita gente, e se for liberalizado ainda dá mais dinheiro e duma forma legal.
E sabem que se tivessem consultado o povo nunca teriam aprovado essa lei?

1/31/2007 05:27:00 da tarde  

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