domingo, outubro 22, 2006

A ideologia abortista

A quem observe com atenção, para além das cortinas de fumo e das proclamações retóricas, não é possível deixar de concluir que a questão do aborto traduz um programa ideológico.
As verdadeiras convicções dos defensores de tal programa tornam-se evidentes nas pequenas frases que escapam, mais do que nos discursos preparados.
Lembro-me como me chocou ver um dia na televisão uma senhora, com certa notoriedade como escritora, explicar que a mulher só poderia dizer-se realmente livre quando o acto de abortar fosse encarado com tanta naturalidade como tratar uma borbulha. E também do episódio, passado na minha presença, em que um conhecido escultor no calor de um debate tentou ironizar com o tema da "defesa da vida" observando divertido "mas o que é a vida? Tudo são formas de vida... uma alface, por exemplo, e todos comemos salada". Ao escultor que via no problema a mesma relevância de comer hortaliças e à escritora que lhe dava a mesma importância que às suas borbulhas pode acrescentar-se a senhora da "Women on Waves" que na excitação da conversa ao telefone com a interlocutora polaca que lhe pedia explicações respondia interrogando o que é que o aborto tinha assim de tão especial, era como cortar as unhas...
Nestes desabafos está a verdade da polémica. Não adianta esse jogo de enganos de estar a discutir se o limite será às dez semanas ou às quinze semanas. Para os militantes de tal programa o acto em si não contém qualquer desvalor, deve ser apenas uma expressão da vontade. A sua legitimidade às 8 semanas é igual à que será às 12 ou às 20. Na realidade, nenhum aborto deve ser considerado ilegítimo, ou ilícito, ou censurável - ninguém tem nada com isso desde que resulte da vontade da mulher portadora do feto.
Neste quadro, evidentemente que é ilusório pensar, como é tentação dos viciados mentalmente no jogo da política, que é possível encontrar uma "solução negociada" e acabar com polémica tão incómoda. Se a lei disser que é lícito até às 10 semanas as organizações abortistas reclamarão que diga 12 semanas. Se passar a dizer 12 semanas os mesmos cartazes e panfletos dirão que deve ser livre até às 15 semanas. E se o legislador conceder, a luta passará a ter como referência as 20 semanas. Em nenhum país do mundo, seja qual for o sentido e o estado actual da sua legislação, a reivindicação parou. Na realidade o que se trata é que no sentir dos combatentes desse programa ideológico nenhum limite pode ser colocado a esse acto, tão irrelevante do ponto de vista ético como cortar as unhas, tratar uma borbulha ou comer uma folha de alface.

1 Comentários:

Blogger Vanguardista escreveu...

«Se a lei disser que é lícito até às 10 semanas as organizações abortistas reclamarão que diga 12 semanas. (...) Em nenhum país do mundo, seja qual for o sentido e o estado actual da sua legislação, a reivindicação parou.»

Escrevi exactamente isso num dos posts lá mais para cima.

«Na realidade o que se trata é que no sentir dos combatentes desse programa ideológico nenhum limite pode ser colocado a esse acto, tão irrelevante do ponto de vista ético como cortar as unhas, tratar uma borbulha ou comer uma folha de alface.»

Exactamente. Lembro-me de um político americano (tipo com responsabilidade, no Senado ou coisa do genero) dizer que "it ain't a baby until you take it home" (cito de memória).

10/23/2006 04:29:00 da manhã  

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